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Turismo de Base Comunitária: quando a comunidade se torna protagonista

Mais do que atrair visitantes, o Turismo de Base Comunitária coloca a comunidade no centro das decisões — relato da Rede de Assentamentos Criativos da Paraíba e das trajetórias de Vânia Santos e Nevinha Silva.

Durante muito tempo, o sucesso de um destino turístico foi medido pelo número de visitantes que conseguia atrair. Mas existe uma pergunta muito mais importante: quem se beneficia do desenvolvimento gerado pelo turismo no território?

Foi justamente para responder a essa questão que o Turismo de Base Comunitária ganhou relevância em diferentes regiões do Brasil. Mais do que uma modalidade de turismo, ele representa uma forma única, criativa e autêntica de desenvolvimento territorial, na qual a comunidade deixa de ser apenas beneficiária e passa a ocupar o centro das decisões, da produção e da geração de valor.

Tive a oportunidade de vivenciar essa abordagem na prática como consultora da Associação de Cultura Gerais (ACG), atuando na estruturação e fortalecimento da Rede de Assentamentos Criativos da Paraíba. O projeto, desenvolvido em 2021, conectou turismo, economia criativa, artesanato, gastronomia, comunicação digital, redes sociais e empreendedorismo feminino em assentamentos rurais do estado.

Naquele momento, nosso principal objetivo não era atrair turistas. O desafio era fortalecer pessoas, valorizar identidades locais, ampliar a visibilidade dos produtos e conectar empreendedoras que compartilhavam histórias e talentos.

Entre as experiências mais marcantes estavam as trajetórias de Vânia Santos, da Tapera Artesanato, no Assentamento Oziel Pereira, em Remígio, e de Nevinha Silva, dos Doces Tambaba, no Assentamento Tambaba, no município do Conde.

Por meio de mentorias, comunicação digital, fortalecimento da identidade local, valorização dos saberes tradicionais e participação em eventos, essas iniciativas ganharam visibilidade, ampliaram mercados e passaram a ocupar novos espaços de reconhecimento.

O mais interessante é que o turismo surgiu como consequência desse processo.

À medida que as histórias, os produtos e os saberes locais passaram a ser valorizados, os assentamentos começaram a despertar o interesse de visitantes em busca de experiências autênticas e contato com a cultura local.

O protagonismo comunitário produziu transformações concretas

Como relata Vânia Santos:

“Passei a enxergar possibilidades que antes não imaginava e a levar minha história, meu cordel e o artesanato que desenvolvemos em Remígio para novos espaços e conexões.”

Já Nevinha Silva destaca a importância da comunicação nesse processo:

“Eu tinha um projeto maravilhoso, mas não sabia lidar com Instagram e ela me ensinou como era importante mostrar nossos produtos e tudo o que a gente fazia para o mundo através das redes sociais.”

O crescimento dessas iniciativas demonstrou que o desenvolvimento territorial não acontece apenas por meio de investimentos externos ou grandes obras. Ele também nasce do fortalecimento dos ativos já existentes nos territórios: cultura, identidade, criatividade, conhecimento, organização comunitária e, principalmente, pessoas.

Anos depois, vejo essa experiência como precursora de discussões que hoje ganham cada vez mais força, como regeneração, novas economias e desenvolvimento baseado em ativos locais. Não por acaso, iniciativas ligadas à Rede de Assentamentos Criativos da Paraíba participaram de projetos associados ao SPFW + Regeneração, demonstrando que inovação e desenvolvimento podem surgir dos lugares mais inesperados.

Cinco anos depois: um processo de transformação

Hoje, em 2026, cinco anos após a criação da Rede, gosto de olhar para essa experiência não apenas como um projeto, mas como um processo de transformação.

Vânia Santos ampliou sua atuação, fortaleceu sua presença cultural e hoje ocupa espaços de liderança ligados à cultura e ao turismo em Remígio. Nevinha Silva consolidou sua trajetória empreendedora, ampliou a visibilidade dos Doces Tambaba e segue inspirando outras mulheres por meio de sua história.

Mais do que produtos, ambas construíram reconhecimento, autonomia e protagonismo.

Talvez esse seja um dos maiores indicadores de sucesso do Turismo de Base Comunitária. Ele não está apenas no número de visitantes recebidos ou nas experiências realizadas. Está na capacidade de fortalecer pessoas para que escrevam suas próprias histórias de desenvolvimento.

E essa é, para mim, a essência do Turismo de Base Comunitária.

Porque os lugares mais interessantes não são feitos apenas de paisagens.

São feitos de pessoas.